quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

AQUILO QUE O PAÍS CHAMA DE MÚSICA



Um pouco além de quem cita apenas a MPB como música boa, é sempre bom relembrar – e elucidar quem ainda não sabe – que a música brasileira já teve qualidade em gêneros populares também. Até mesmo o axé, rico ritmo regional baiano que expressava muito bem uma das principais identidades regionais do país, antes de ser pasteurizado por alguns nomes que atingiram o topo do estrelato, cumpria muito bem sua missão enquanto era cantado por nomes como Daniela MercuryMargareth Menezes e Luís Caldas.
A música pop brasileira também nunca foi de se jogar fora. Deborah Blando é um bom exemplo disso. E o nosso rock, bem, talvez nele resida a parte mais brilhante do que já foi feito nesse país como música. Da banda santista Charlie Brown Jr. ao revoltado com causa e consciência Cazuza, mestre poeta, até a imensurável Rita Lee: nomes que, apesar de incríveis, são apenas a ponta de um iceberg sonoro que é gigante no quesito qualidade.
Só que esses nomes, assim como uma dezena de outros que fazem parte do mais alto escalão da música desse país, caiu no esquecimento para a maioria dos brasileiros. Poderíamos dizer que, atualmente, com exceção de alguns nomes da velha-guarda que continuam atuantes produzindo para uma camada cada vez mais segmentada da população, o Brasil é um país que, na música, já não tem ídolos.
E é nesse vazio que reside as principais estrelas da música brasileira atual, que além de desconstruírem um gênero proveniente de uma das culturas mais originais desse país, a sertaneja, pasteurizando seu ritmo e história para vender uma realidade pouco criativa e pobre em forma de música, engoliram o mercado fonográfico brasileiro quase que inteiro, dominando uma indústria que sequer fomentam direito.
Não confunda essa crítica com uma revolta geral contra o gênero. É necessário dizer que não apenas os nomes que ergueram a música caipira de raiz no século passado, mas até mesmo as duplas românticas surgidas durante os anos 80 e 90, merecem o respeito geral de qualquer pessoa que entenda o mínimo de música.
Ainda no meio da década passada, as rádios brasileiras não eram completamente dominadas por duplas que pouco se distinguiam entre si. Provavelmente, o primeiro grande fenômeno do gênero nesse período tenha sido a banda Nashville. Em seguida, até meados de 2009, começou o surgimento de fenômenos oriundos da internet como Luan Santana, uma espécie de Justin Bieber semirrústico (mas que tem lá o seu talento), duplas absolutamente esquecíveis, como a mista Maria Cecília e Rodolfo, até chegar aos dias atuais, onde alguns cantores solos se estapeiam para decidir quem será o dono do hit mais banal que entoará as baladas “universitárias” desse país durante 4 ou 6 meses no máximo.
As fórmulas são semelhantes. Os cantores solos competem entre si tentando fidelizar o público – em sua maioria mulheres – com inúmeras fotos sem camisa postadas em suas redes sociais. O melhor seria parar de escrever por aí, mas é quase impossível concluir esse texto sem fazer ao menos uma leve análise sobre as composições desses artistas. Nem mesmo o romantismo existe mais. O que existe hoje é uma sequência de canções que são escritas “inspiradas” em alguma outra que deu certo antes. Tentarei ser explicar de forma didática!
É assim: se uma dupla ou cantor faz uma música sobre um carro importado, a Ford já pode ficar feliz, pois em algum momento alguém lhe fará uma campanha publicitária viral gratuitamente. Começa com uma proposta “ostentação”, uma “música” sobre um Camaro amarelo, depois vem outro querendo ser, digamos que, mais rústico, e canta sobre uma Hilux. Por fim, aparece outro querendo ser mais romântico e simples, e faz uma música sobre um carro popular no diminutivo, até que surge uma dupla do interior cantando uma música sobre alguma motocicleta.
Essas duplas surgem e desaparecem como que na velocidade da luz. Não há proposta, não há identidade, não há nem mesmo uma ligação direta com a cultura sertaneja. Usam apenas os elementos mais básicos, caracterizam-se e financiam alguma canção genérica de outra que já não acrescenta muita coisa com um bom investimento em jabá.
Não há sequer álbuns de estúdio, salvo casos raros de nomes que merecem o nosso respeito, como os mineiros Paula Fernandes e Vitor & Leo. São apenas sequências de álbuns e DVDs gravados ao vivo, estruturas de shows enormes e cheias de pirotecnias para artistas sem conteúdo algum, sem razão alguma, sem essência alguma. Artistas que não sabem de onde vieram e nem para onde vão. Artistas que estão engolindo o mercado fonográfico brasileiro, já que o sertanejo basicamente passou a dominar inclusive uma parcela significativa de bares e restaurantes que ofertavam música boa ao vivo até um tempo atrás. Sem falar nas rádios de grande alcance que restaram, que ao verem suas audiências ruírem, entregaram sua grade de programação quase que em 90% para o gênero, de olho no “investimento” constante que esses artistas fazem para disseminar suas músicas.
Mas uma música que não é consistente jamais poderá erguer uma carreira consistente. E na mesma velocidade com que surgem, boa parte desses nomes irão desaparecer sem lembrança alguma na memória de um público que hoje se diz fã, mas que não será capaz de comprar um único álbum ou DVD na primeira derrocada comercial que a “carreira” de algum desses nomes apresentar. Isso sem mencionar a longo prazo, porque se podemos ter certeza de algo nessa vida, é que para o bem ou para o mal, o passado sabe muito bem o seu lugar. E se nem aquilo que realmente é de valor e atemporal persiste com a mesma força de antes, não será uma “música” que mal consegue se sustentar por dez anos que ficará. Não ficarão!
Créditos: portalcontempop.com/

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