É preciso que o mendigo aperte meus ombros para que eu volte à realidade. “Tô miado hoje, padrinho, lamento”. Ele me corrige, não pede dinheiro, quer só saber as horas. Nessa situação, seria normal sentir vergonha pela pressa em dispensá-lo, mas agora, quase oito da manhã, em plena São Paulo com Guaicurus num domingo pós-Virada Cultural, estou cansado demais até para um dos meus esportes favoritos: me chicotear.
Depois de andar toda a cidade, por toda uma noite, com toda essa gente, é normal que bata a necessidade de se jogar no fundo de um táxi e ir só acordar em casa, sem nem conferir o troco. Mas é impossível fazer isso quando a moça mais bonita do mundo toma banho com a água de chuva que cai da calha de uma das casas da Guaicurus. Não é alta, nem baixa, e é impossível saber a sua idade – uma daquelas que pode muito bem ter dezessete ou vinte e nove -, se é que os anjos têm data de nascimento. Ela dá às costas para a casa e deixa a água cair sobre seus longos cabelos pretos, que junta com o encontro das duas mãos como uma concha. No fundo, a banda guarda seus instrumentos e se bate em retirada, a rua vai se esvaziando, e não há sequer um miserável que não assiste, nem que seja de soslaio, ao banho de calha da garota na Guaicurus.
Suas roupas estão encharcadas e sem nenhuma vulgaridade, ela sorri para o Sol com os olhos fechados, nem aí; descalça, parece que seus pés sequer tocam o asfalto molhado. A água que cai da calha é límpida e se mistura com o suor do seu rosto sem fazer barulho, como se assistíssemos a um auto-batismo à beira de uma cachoeira.
Logo me dou conta que o elemento fantástico da cena não é a beleza da menina ou a luz que corta as barracas dos patrocinadores, o encanto está no fato da ser a Rua dos Guaicurus, levando consigo todo o peso histórico que a zona representa para a cidade. E penso em contar tudo isso para ela, de modo a alertá-la – e até, quem sabe, salvá-la – de tudo o que compõe a água na qual ela se banha.
Mas antes que eu dê o primeiro passo, sou obrigado a admitir que são as minhas lentes moralistas de rapaz cristão belo-horizontino que turvam aquela água. É a coleção de relatos sórdidos que coleciono há anos de amigos, primos e vizinhos, sem nunca ter eu mesmo subido qualquer um daqueles degraus. O pecado mora nos meus olhos.
Quando a menina rodopia para fora e começar a tomar seu rumo em direção à Espírito Santo, percebo que o palco já fora desmontado e que os policiais já vão retirando as cancelas, retomando o trânsito local. Fico sozinho a encarar o jorrar da calha batendo no asfalto, carregando a dura certeza de que em toda a Guaicurus, sujo estou só eu.
Creditos; belorizontino.com

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