domingo, 29 de novembro de 2015

MINHA ANSIEDADE TEM ANSIEDADE


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Nervosismo, expectativas, preocupações. Quem sofre de ansiedade não leva uma vida fácil. Os dias e as horas demoram a passar e, às vezes, seguem um ritmo diferente das outras pessoas. Apesar de ele mesmo não ser, seja paciente com o ansioso!
Não julgu­e um ansioso. Ele não faz por mal. E garanto: ele gostaria de viver a vida de acordo com o relógio que as outras pessoas vivem.
É normal ficar ansioso por uma viagem, por um show ou até por uma festa. O ansioso, porém, é aquele que mesmo quando nada está acontecendo, tudo pode estar desmoronando. E, sim, ele precisa daquela resposta agora para poder salvar o mundo.
Não deixe um ansioso esperando. Não diga a ele que você tem algo para contar, mas não pode ser agora. Não o deixe quase entra em pânico ao observar aquele “escrevendo...” no Whatsapp e nada da resposta aparecer. Não peça para esperar sete dias úteis. Não se atrase. Ele com certeza começou a se arrumar uma hora antes do que precisava, justamente para não deixar ninguém esperando. O problema é que ele vai ficar pronto antes e vai ficar esperando. Não importa se forem 40 ou 10 minutos, será uma eternidade.
O ansioso já planeja a vida no primeiro dia do ano. Tem um feriadão em maio. Bom para viajar. Vou precisar começar a organizar tudo logo. Sim, ele acha que todos são iguais a ele e, portanto, não será fácil de achar vaga em hotel, nem assento disponível na janela do avião. É preciso correr! Ok, tudo pronto. Já sei até que roupa vou colocar. Só viajar. Mas espera... Vou ter que esperar todos esses meses ainda? Um verdadeiro horror!
O dia não tem apenas 24 horas quando um ansioso está esperando alguma coisa. E, às vezes, ele fica ansioso até sem ter algum evento programado, é só pelo esporte mesmo. Para o ansioso, a ansiedade é tipo um monstrinho que vai comendo seus órgãos internos um a um. Então, não julgue o ansioso. Ele só faz tudo isso, pois está ansioso para viver estes momentos com você!


Créditos:obviousmag.org

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

É UM MENINO !

                                                                                                                      Fotografia: Christian Hopkins

Vai ter nome de anjo
Nome de rei
Nome de macho
Vai ser a cara do pai
Aposto!
Vai ser jogador
Médico
Advogado.
Que garoto lindo!
Sabe jogar bola? Tem que aprender
Larga essa boneca!
Te dei milhares de carrinhos
O que ta fazendo? Tira essa roupa de bicha!
Vira HOMEM!
Onde já se viu filho meu furar orelha?
Já tá um rapaz hein?
E as namoradas?
Já transou?
Ele é o que? GAY?
Não pode!
Gente, um homem tão lindo!
Seu sujo! Porco!
Tem que morrer essas pragas!
Bicha IMUNDA!
Mamãe, eu sou gay
Eu ainda sou seu filho
Eu te amo muito
E nada vai mudar isso
Me aceite
Me ame
Continue me acolhendo
Veja mamãe, não estou com febre
Estou bem!
Estou tão bem
Encontrei alguém
Alguém que me ama também
Assim como você me amou todos esses anos
Não chore mamãe!
Eu não vou morrer!
Não tenho HIV
Sou homem responsável
Trabalho, estudo
Tenho minha vida
E me cuido.
Eu ainda sou o seu anjo
Afeto não se escolhe
Desejo não se escolhe
Amor não se nega
Eu sou gay
Sim eu sou gay
E isso não muda nada
Ainda sou seu melhor amigo
Ainda sou seu parceiro de festas
Ainda sou seu professor engraçado
Ainda sou o melhor funcionário
Ainda sou cristão
Ainda sou ateu
Ainda sou eu
Ainda sou seu filho.
Eu existo
Existem milhares
De meninos
Rapazes
E homens
Homossexuais!
Eu escohi ser assim?
Eu rezei para ser assim?
Mas assim como?
Isso é doença?
Isso é pecado?
Isso é o que afinal?
Eu gosto de homens
Eu tenho afeto
Sinto amor por eles
E eu sou homem também.
Cabelo comprido
Barba grande
Tenho o céu refletido nos olhos
Ando devagar, assustado talvez
Medo que me notem
Que me batam
Me espanquem
Me matem!"
-Helena Ferreira

terça-feira, 17 de novembro de 2015

GUAICURUS



        É preciso que o mendigo aperte meus ombros para que eu volte à realidade. “Tô miado hoje, padrinho, lamento”. Ele me corrige, não pede dinheiro, quer só saber as horas. Nessa situação, seria normal sentir vergonha pela pressa em dispensá-lo, mas agora, quase oito da manhã, em plena São Paulo com Guaicurus num domingo pós-Virada Cultural, estou cansado demais até para um dos meus esportes favoritos: me chicotear.


      Depois de andar toda a cidade, por toda uma noite, com toda essa gente, é normal que bata a necessidade de se jogar no fundo de um táxi e ir só acordar em casa, sem nem conferir o troco. Mas é impossível fazer isso quando a moça mais bonita do mundo toma banho com a água de chuva que cai da calha de uma das casas da Guaicurus. Não é alta, nem baixa, e é impossível saber a sua idade – uma daquelas que pode muito bem ter dezessete ou vinte e nove -, se é que os anjos têm data de nascimento. Ela dá às costas para a casa e deixa a água cair sobre seus longos cabelos pretos, que junta com o encontro das duas mãos como uma concha. No fundo, a banda guarda seus instrumentos e se bate em retirada, a rua vai se esvaziando, e não há  sequer um miserável que não assiste, nem que seja de soslaio, ao banho de calha da garota na Guaicurus.

Suas roupas estão encharcadas e sem nenhuma vulgaridade, ela sorri para o Sol com os olhos fechados, nem aí; descalça, parece que seus pés sequer tocam o asfalto molhado. A água que cai da calha é límpida e se mistura com o suor do seu rosto sem fazer barulho, como se assistíssemos a um auto-batismo à beira de uma cachoeira.
Logo me dou conta que o elemento fantástico da cena não é a beleza da menina ou a luz que corta as barracas dos patrocinadores, o encanto está no fato da ser a Rua dos Guaicurus, levando consigo todo o peso histórico que a zona representa para a cidade. E penso em contar tudo isso para ela, de modo a alertá-la  – e até, quem sabe, salvá-la – de tudo o que compõe a água na qual ela se banha.
Mas antes que eu dê o primeiro passo, sou obrigado a admitir que são as minhas lentes moralistas de rapaz cristão belo-horizontino que turvam aquela água. É a coleção de relatos sórdidos que coleciono há anos de amigos, primos e vizinhos, sem nunca ter eu mesmo subido qualquer um daqueles degraus. O pecado mora nos meus olhos.
Quando a menina rodopia para fora e começar a tomar seu rumo em direção à Espírito Santo, percebo que o palco já fora desmontado e que os policiais já vão retirando as cancelas, retomando o trânsito local. Fico sozinho a encarar o jorrar da calha batendo no asfalto, carregando a dura certeza de que em toda a Guaicurus, sujo estou só eu.
Creditos; belorizontino.com