“Não se atreva a me dizer o que eu posso falar ou fazer!” Assim respondeu RuPaul Charles, a top drag queen RuPaul, ao ser acusada de transfobia pelo uso das expressões “tranny” e “she male” em seu famoso reality show.
“Tranny” e “she male” (travinha e mulher macho, em tradução livre) são considerados termos ofensivos para a comunidade transexual, já que eles e elas não são travestis e tampouco se consideram híbridos (transexuais em geral têm gêneros definidos por sua psiquê, não pela genitália, portanto devem ser tratados socialmente como homens ou mulheres, podendo ser homossexuais ou heterossexuais).
Posto isso, a questão que surge é: RuPaul, com todo seu histórico de lutas e defesa dos direitos da comunidade LGBT, pode ser chamada de transfóbica? Ou isso é apenas histeria de pseudo-ativista fanático? Eu opto pela segunda.
O caso de RuPaul não é isolado. Madonna recentemente participou de uma conversa no site BuzzFeed durante a qual participou de uma brincadeira. O pessoal do site lhe mostrava um cartaz com um nome e ela deveria escrever, em outro cartaz, algo sobre aquele nome. Quando lhe mostraram “Putin”, ela escreveu “gay”. Em seguida, mostraram-lhe a palavra “couve”. Novamente ela escreveu “gay”. Bastou para que começassem a classificar Madonna, justamente a Madonna, de homofóbica.
Pouco tempo antes desse fato, também chamaram-na de racista por ela ter usado a palavra “nigga” (uma gíria para “nigger”, que, para os negros americanos, é super ofensiva). Justo a Madonna, que tem dois filhos adotivos negros, que construiu 15 escolas para meninas no Malauí, que namorou latinos, negros, brancos e que sempre deu toda abertura ao multiculturalismo em sua música e shows.
Também podemos citar a polêmica em torno de #somostodosmacacos, que levou muito ativista a pular miudinho por causa de uma expressão que pode ter outros significados, como por exemplo o de que todos nós seres humanos que praticamos o racismo agimos como pessoas selvagens ou ainda que biologicamente compartilhamos com os macacos 97% do nosso DNA, portanto se um negro é um macaco um branco também é (e aí, onde está a ofensa?).
Mas voltando ao caso de RuPaul, percebo como o ativismo de internet tem dado tanta importância ao uso de palavras. Veja o que mais ela disse sobre o poder que damos a elas.

Madonna usa o adjetivo “gay” para o presidente russo Valdimir Putin. Ele talvez ache isso ofensivo, mas ela foi homofóbica? Acho que não…
“São só palavras. Sim, palavras machucam. ‘Palavras me machucam’. Quer saber? Gata, você precisa se fortalecer. Porque, sabe de uma coisa, se você está chateada por causa de algo que eu disse, você tem problemas maiores do que pensa.”
Em seguida, disse não acreditar que as acusações tenham partido de ativistas da causa trans, que teriam entendido que aquilo foi uma piada. “Algumas pessoas não entenderam a piada e usam sua vitimização para criar uma situação. Você olha para mim e quer que eu aja do jeito que você gostaria que eu fosse. Mas, sabe, se sua ideia de felicidade tem a ver com o que alguém deixa de falar ou com alguém deixar de fazer o que quiser, você está escolhendo um caminho bem pedregoso.”
Eu já disse isso, inclusive parafraseando a RuPaul, de que o poder das palavras é dado pela ideia que nós fazemos delas. Hoje mesmo, Danilo Gentili disse em entrevista ao UOL que não liga que o chamem de gay, “porque eu não sou e porque ainda que eu fosse gay, ser gay não é algo ruim. Não tem nada de errado nisso”. Criolo já disse o mesmo. George Clooney idem. Então, se você ainda se ofende quando te chamam de viado, macaco, sapatão, gay, bicha, puta, vadia, traveco, desculpa, mas você está se vitimizando e, assim, dando poder ao agressor.
Nada mais eficiente contra um “xingamento” que nossa autoestima. Se você sabe quem é, não se ofende com ofensa pobre. E, mais, se você conhece o verdadeiro significado das palavras, ou ainda os outros significados que as palavras podem ter, vai se ofender menos ainda. Então, vamos apontar nosso ativismo aos reais inimigos? Porque, sinceramente, ficar policiando piada de gente que sempre lutou pela causa é estupidez pura.
E, sempre bom lembrar a frase com que RuPaul encerra seus programas: “Se você não consegue amar a si mesmo, como diabos vai querer amar alguém?”
Credito: Ladobi.com




